Portinari e Caninana. Artes, cores e memórias da migração

Caninana (Ayra Aziza). “18h30”. Tinta a óleo, bordado e folha de ouro. Exposição MAR. Foto: Taís Brito, 2025.
Por Taís Brito
O Museu de Arte do Rio (MAR) exibe até 26 de outubro de 2025 a exposição “Territórios de Lembranças”, de Caninana (Ayara Aziza). Ela retrata o fenômeno da migração compulsória de povos afropindorâmicos (quilombolas, negros e indígenas), destrinchando esse processo através de cores vivas e bordados proeminentes. A artista resgata a memória de um passado relacionado ao tempo presente – em que pessoas, principalmente oriundas da região Nordeste, migraram para o Sudeste para fugir de uma realidade marcada pela fome e pela miséria.
Nesse período, poucos migrantes internacionais chegavam ao país devido às políticas restritivas impostas pelo Estado Novo (1937-1945). Os anos foram marcados pela explosão do desemprego na região Nordeste, a falta de infraestrutura e a seca, que impulsionou milhares de pessoas a deixarem seus lugares de origem. Nesses deslocamentos nacionais, não havia suporte ou auxílio como os dados aos migrantes vindos da Europa, reforçando o caráter higienista de propagação da “nova” identidade nacional. Dentro desse contexto, a artista tem como inspiração a obra “Retirantes” (1944), de Cândido Portinari, que representa as trajetórias de milhares de famílias nordestinas migrantes que buscavam melhores condições de vida na região Sudeste, sobretudo no Estado de São Paulo.
Em um primeiro olhar, a narrativa de que as famílias deixavam seus lares em busca de condições melhores de vida parecia inocente, mas durante todo o processo migratório elas foram atormentadas pela falta de condições básicas de sobrevivência. O estigma social da marginalização e o esquecimento da região Nordeste em relação ao restante do país se somaram como fatores de produção de hostilidade. Cada corpo possuía uma trajetória, laços e raízes, não sendo possível retratar suas singularidades em uma simples matéria de jornal ou discurso. Literatos como Graciliano Ramos em “Vidas Secas” se encarregaram então de dar vida à complexa realidade dos migrantes. Assim como as pinceladas sensíveis de Portinari e Caninana.
Como relacionar essas duas obras que tratam do mesmo tema, mas navegam por caminhos diferentes? Portinari retrata a migração de forma fúnebre, explorando a miséria com traços góticos e expressando a agonia do indivíduo. Grande parte dos migrantes carregava em sua bagagem a miséria e o sonho de uma vida melhor. O processo migratório os expunha a violências e atos discriminatórios associados a uma imagem de atraso, pobreza e baixa qualificação, ficando sujeitos a empregos como mão de obra barata. A dor mostrada visualmente busca fazer o espectador sentir a angústia enfrentada por aqueles corpos. O objetivo de Portinari era denunciar uma realidade não fantasiada. Pintado dentro de um contexto modernista, a principal característica do seu trabalho é a crítica do nacional, rompendo com a tradição da arte europeia. O sertão expresso em um quadro fosco, marcado pela estupefação de vidas assombradas, raquíticas e desesperadas em relação ao presente e ao futuro.
Por sua vez, Caninana resgata em “Território de Lembranças” uma perspectiva de resistência e ressignificação. As cores alegres e vivas, o bordado que trata a geografia da migração com miçangas douradas e a releitura da bandeira nacional nos fazem enxergar um futuro possível, para além da dor. Ela não busca apagar ou encobrir, mas sim trazer a memória do que foi e de quem foi o corpo expulso, traçando uma linguagem de esperança. Esses corpos recriam e germinam uma nova história durante o movimento. A artista resgata faces de indivíduos afropindorâmicos em uma natureza verde, de feições vivas e humanizadas. Não mais sob a perspectiva de miséria e sofrimento, como em Portinari, mas como indivíduos em um lugar real. A memória trazida agora é sobre os anseios e sonhos e sobre quem eles são, perpassando uma corrente política.
Em um dos últimos quadros da exposição, intitulado “Iuná”, a artista realiza uma releitura da bandeira nacional, onde o centro é uma mulher de traços afroindígenas em torno de uma tintura dourada e circundada da palavra “okê” – palavra do iorubá que remete à montanha (ou superioridade). Com essa representação, estimula a reflexão e nos encaminha ao debate: qual o perfil dos imigrantes incentivados a vir para o Brasil a partir dos interesses econômicos, políticos e sociais do país? Atravessando contextos de racismo, xenofobia, necropolítica e necrofronteira, questiona-se: quem pôde – e ainda pode – atravessar as barreiras? Quem eram os imigrantes desejados pelo Brasil no passado e quem são os desejados hoje? O que as fronteiras revelam sobre nossos preconceitos? Afinal, o que significa ser imigrante no Brasil? Seríamos, de fato, um povo acolhedor?
A bandeira se mostra como um símbolo nacional que representa a retomada de um território retirado. Em uma entrevista para o Canal Curta durante o ArtRio 2025, a artista fala sobre o processo criativo por trás das obras, destrinchando os elementos mencionados, como a mulher cabocla, o poder da cozinha e as memórias afetivas:
Quando eu criei e pensei nas obras para esse lugar, eu imaginei o ciclo da vida, né? Iniciando com esse quadro que está atrás de mim, que é a infância, lugar de desenvolvimento e passando disso, uma construção familiar, que é o quadro chamado Vidas Férteis. E essa construção familiar se desemboca através de um território e a gente vai passar por Rio de Janeiro, Itatim, Santa Terezinha, Guarujá e São Paulo. Ao fundo a gente vai encontrar uma bandeira que representa o nosso território, Brasil, só que é o Brasil que eu acredito que faz parte da junção que eu quero representar, onde no meio a gente vai ter uma mulher que é uma cabocla, uma mistura de preta com pindorâmica e ao fundo a gente vai ter essa mulher em um lugar que ela está desenvolvendo um cuidado com a cozinha. A cozinha para mim ela não é necessariamente um lugar de servidão. Ela é um lugar de desenvolvimento, de magia, de poder. Se você for ver no candomblé, as mulheres que estão trabalhando na cozinha, elas detêm muito poder, porque ali elas estão colocando aché, vida, desenvolvimento. Então elas alimentam a sua comunidade. Então, que muitos olham com olhar depreciativo, eu olho com um olhar de poder, de cuidado e de afeto (Caninana, 2025).
A exposição nos faz questionar como ficamos envolvidos e entrelaçados na história desses indivíduos. Caninana e Portinari buscam a convivência de relações com tudo o que está em si e em seu entorno, numa configuração que se realiza nas trocas e no compartilhamento, em prol de uma criação volátil. Mostrando outras formas de ser e estar no mundo, ao expor a experiência sensível em seu trabalho, convidam nossa visão a entrar na tela e perceber o que está supostamente invisível. Diante das atuais tensões políticas, guerras e genocídios de determinados grupos, pensamos como a arte atua como um modo de denunciar e retratar a vida desses grupos que são retirados compulsoriamente de seu lugar de origem.
Referências bibliográficas
BARRETO, Maria Neli. A configuração de retirante: a relação entre literatura e artes plásticas. Revista Athena, v. 19, n. 2, 2020. DOI: 10.30681/issn22379304v19n02/2020p122-135. ISSN 2237-9304.
CANINANA (AYRA AZIZA). Território de lembranças [vídeo]. Entrevista concedida ao Canal Curta. YouTube, 2025. Disponível em: https://youtu.be/uZUPJZ2SNHE. Acesso em: 17 set. 2025.
FEIJÓ, Leonardo. Vidas migratórias: uma análise sobre a migração do ponto de vista dos romances regionalistas, das artes plásticas e do teatro. Revista Humanidades e Inovação, Palmas, v. 12, n. 1, 2025. ISSN 2358-8322.
Taís Brito é estudante de Ciências Sociais da UFRJ e bolsista de IC-Faperj do projeto “Fluxos e Narrativas de Memórias Sensíveis”, coordenado por Roberta Guimarães no Departamento de Antropologia do IFCS/UFRJ.
