A retórica da sustentabilidade: disputas entre políticas patrimoniais e de transição energética

Fileiras de cultivo em primeiro plano; ao fundo, aerogeradores e torres de linhas de transmissão no município de Currais Novos (RN). Foto: Sylvia Bomtempo

O presente projeto tem como objeto de análise as táticas discursivas, os mecanismos burocráticos e os agenciamentos socio-técnicos em projetos econômicos que intervêm nos usos e modos de ocupação do território sob a égide do “desenvolvimento sustentável”. A partir da análise do conflito socioambiental gerado pela implantação do Complexo Eólico Pedra Lavrada nos arredores do Geoparque do Seridó (RN), busca-se investigar como a noção de “sustentabilidade” pode abrigar movimentos de elasticidade, porosidade, ambiguidade e adaptabilidade para justificar intervenções orientadas por uma “imaginação de futuro” (Bryant & Knight, 2019). A pesquisa pretende compreender, portanto, como essa noção pode operar como um dispositivo de gestão de territórios, populações, memórias e imaginários, legitimando formas de apropriação, pilhagem e dominação (Nader; Mattei, 2013; Acselrad et al., 2021) que vão da financeirização da natureza em nome da soberania energética nacional à exploração turística através da patrimonialização das formações rochosas e da biodiversidade. É nesse entrelaçamento de discursos e práticas que se delineiam as questões que orientam esta pesquisa sobre as disputas em torno dos modelos e formas de implementação dos projetos de “desenvolvimento sustentável” . Quais feixes de poder tornam possíveis tanto a execução de grandes empreendimentos quanto a chancela internacional de patrimônios naturais e culturais? Em que medida o conflito evidencia tensões entre entre agendas globais e locais? Como o recurso retórico do passado e do futuro sustenta projetos político-pragmáticos no presente? De que forma um léxico consensual pode ocultar o caráter político desses projetos? Quem são os atores e em quais redes se articulam nas políticas públicas do Estado? Como essas políticas moldam imaginários sobre o Seridó e influenciam os fluxos econômicos e financeiros?

Coordenadora: Sylvia Bomtempo