Memória e acervos comunitários. Reflexões a partir de contextos de licenciamento ambiental

Por Aline Sousa

Museu Quilombo da comunidade de Serradinha, Fátima-BA. Fonte: @quilombo_serradinha, 2025.

A criação de acervos e museus comunitários muitas vezes precede qualquer processo formal de envolvimento de universidades, especialistas ou o desenvolvimento de políticas públicas. Essa criação surge do anseio de impedir que a história da comunidade seja esquecida após a morte das pessoas mais velhas, da demolição das casas ou da transformação dos territórios.

Em comunidades quilombolas nas quais trabalhei como consultora no âmbito do licenciamento ambiental, percebi que a memória não surge como “patrimônio”, “museologia” ou “arquivo” – ela se materializa em registros da história local, na transmissão do conhecimento entre gerações, na construção de interesses e referências culturais (Pollak, 1992). Na preservação pelas famílias de fotografias, objetos, documentos, roupas de festas, imagens religiosas, instrumentos de trabalho e arquiteturas do quilombo.

São atos que aconteceram sem financiamento, sem equipe técnica e sem estrutura institucional, mas que carregam a capacidade de manter viva a memória coletiva. Acervos que, em contextos de ameaça ou mudança territorial, passam a atuar também como instrumentos políticos de resistência e de mediação nas relações estabelecidas com agentes externos, afirmando a permanência histórica dessas comunidades em seus locais.

Entre 2024 e 2025, tive contato com uma dessas iniciativas comunitárias de memória na comunidade quilombola de Serradinha, localizada no município de Fátima, na Bahia. Seus integrantes tinham forte articulação com outras comunidades quilombolas da região entre Bahia e Sergipe, integrando uma rede voltada à valorização das expressões culturais e ao fortalecimento da identidade quilombola por meio de apresentações culturais, encontros, celebrações e compartilhamento de saberes tradicionais.

O contexto era de licenciamento de um projeto associado à implantação de uma linha de transmissão de energia na região. Era a primeira vez que a comunidade de Serradinha entrava em contato com esse tipo de projeto de infraestrutura, passando a se relacionar com as etapas, exigências e instrumentos legais associados ao licenciamento ambiental brasileiro. Como medida de compensação de impactos, o projeto indicou a construção de um Centro Cultural. A criação desse espaço era uma das principais reivindicações da comunidade, como forma de fortalecer intercâmbios culturais e ampliar sua visibilidade e acesso a políticas públicas e editais privados.

Após o encerramento de minha atuação como consultora, acompanhei pelas redes sociais da comunidade o processo de criação do Museu Quilombo em Serradinha, instalado em um espaço improvisado no próprio território quilombola. Trata-se de um local destinado à preservação de objetos, fotografias, documentos históricos, trajes do samba de roda e outros elementos associados às práticas culturais, à memória coletiva e às trajetórias das famílias da localidade.

Acompanhar esse movimento me permitiu perceber que, paralelamente às iniciativas vinculadas ao licenciamento ambiental, como a demanda pela implantação de um Centro Cultural Quilombola, a comunidade também mobiliza seus próprios recursos, redes de colaboração e formas de organização para preservar e transmitir suas referências históricas e culturais. Entendo como um processo que evidencia a agência comunitária na produção de espaços de memória, demonstrando que a preservação do patrimônio não se restringe a ações institucionais ou técnicas, mas emerge igualmente de iniciativas locais voltadas à valorização da ancestralidade, ao fortalecimento da identidade coletiva e à permanência das narrativas quilombolas no território.

Museu Quilombo da comunidade de Serradinha, Fátima-BA. Fonte: @quilombo_serradinha, 2025.

Há, portanto, uma dimensão afetiva, mas também política, na decisão de guardar objetos e manter vivas as referências associadas à memória coletiva e à trajetória da comunidade. De fato, o “acervo” atua como forma de resistência física e simbólica.

Nesse contexto, o projeto de mitigação de impactos vinculado ao desenvolvimento do projeto de infraestrutura pode ampliar as possibilidades de acesso dessa comunidade às políticas públicas e ao financiamento voltado ao fortalecimento organizativo, na preservação do acervo comunitário e em outras ações de preservação de suas referências culturais e territoriais.

Contudo, isso não constitui uma consequência imediata desses processos, uma vez que dependem da forma como os projetos de mitigação de impactos são estruturados e implementados, da capacidade de mobilização e articulação das comunidades e das relações estabelecidas entre os diferentes atores externos envolvidos.

Desse modo, tais processos de licenciamento ambiental também devem ser compreendidos de forma crítica, uma vez que emergem em contextos marcados por profundas assimetrias de poder. Como observa Gustavo Lins Ribeiro (2014), os projetos de grande escala constituem uma forma específica de intervenção associada à expansão de sistemas econômicos mais amplos, mobilizando recursos, instituições e discursos de “desenvolvimento” – com suas promessas de modernização, integração territorial, geração de empregos e melhoria da qualidade de vida. Mas, frequentemente, produzem transformações significativas nos territórios e modos de vida locais.

Nesse sentido, embora as medidas de mitigação e compensação possam gerar oportunidades para o fortalecimento de iniciativas comunitárias, elas não eliminam as tensões, conflitos e desigualdades presentes nos processos de implantação desses grandes projetos de infraestrutura, nem substituem as perdas materiais, simbólicas e territoriais vivenciadas pelas populações afetadas.

Em contextos de licenciamento ambiental, a valorização da memória e do patrimônio cultural também pode ser entendida como resultado da capacidade de mobilização e reivindicação das próprias comunidades diante das transformações impostas por esses projetos. Constitui uma forma de resistência, por meio da qual os grupos reafirmam sua presença histórica no território e protagonismo político.

No caso dos territórios da diáspora africana no Brasil, a memória coletiva frequentemente é atravessada por violências históricas, racismo estrutural e ameaças territoriais, funcionando também como uma forma de transmitir experiências, ancestralidades e referências culturais para as gerações futuras (Abreu, Mattos, 2012). Nesse sentido, os acervos e museus comunitários negros evidenciam uma prática coletiva de resistência ao apagamento histórico, como também de garantia de direitos.

Esses espaços não operam na lógica dos museus tradicionais, centrados apenas na conservação técnica de objetos, mas como locais vivos de transmissão dos saberes e experiências locais. São como “locais de recordação”, como discutido por Aleida Assmann (2021), ao se constituírem como suportes materiais e simbólicos da memória coletiva, concentrando experiências históricas, afetos e pertencimentos sociais. Para além de lugares institucionais de preservação, esses espaços permitem a transmissão da memória entre gerações, especialmente em contextos marcados por resistência e luta pela permanência territorial.

Visita ao acervo do Jongo da Serrinha, Rio de Janeiro-RJ, em 22/05/2026. Foto: Aline Sousa

Essa reflexão ganhou força para mim após uma visita à Casa do Jongo, na zona norte do Rio de Janeiro, junto com o grupo do NESP/UFRJ em maio de 2026. Embora diferente do contexto rural quilombola de Serradinha, o trabalho desenvolvido na sede do Grupo Cultural Jongo da Serrinha me ajudou a perceber como memória, ancestralidade e território estão profundamente conectados.

O projeto de preservação da memória no Jongo da Serrinha, hoje realizado em parceria com a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), revela a importância da articulação entre conhecimento acadêmico e saberes comunitários, sem que isso signifique apagar a autonomia das narrativas comunitárias sobre si mesmas.

Ainda que atualmente o grupo conte com diferentes formas de apoio institucional, participação em editais de financiamento e projetos de extensão universitária, a iniciativa de preservação dos objetos, das histórias e das referências do jongo partiu das próprias pessoas que formam o grupo, evidenciando seu protagonismo na construção e manutenção desse local de memória, em diálogo com movimentos mais amplos de valorização da memória afro-brasileira.

Visita ao acervo do Jongo da Serrinha, Rio de Janeiro-RJ, em 22/05/2026. Foto: Aline Sousa

O mais interessante foi perceber que os sentidos do acervo do Jongo da Serrinha ultrapassam a documentação ou armazenamento do passado. Ele permanece vivo através da música, da dança, das narrativas, das fotografias, dos tambores e das histórias compartilhadas. Isso também ajuda a compreender os limites de alguns modelos técnicos de patrimonialização. Os acervos comunitários preservam algo fundamental: a memória coletiva como experiência vivida.

Nos processos de licenciamento ambiental, essa discussão aparece de modo recorrente, pois os estudos técnicos tendem a tratar o “patrimônio cultural” relacionado apenas aos bens oficialmente registrados, ignorando redes de memória existentes nos territórios. Mas muitos dos elementos mais importantes para as comunidades não estão tombados, catalogados ou institucionalizados. Eles existem nas relações sociais, nas práticas culturais e nos espaços cotidianos.

Por isso, os acervos e museus comunitários ensinam muito sobre as formas locais de preservar o passado. São experiências que mostram que a memória não depende do reconhecimento estatal para possuir legitimidade. Talvez um dos aspectos mais relevante dessas iniciativas seja justamente sua capacidade de transformar a memória em resistência. Em contextos marcados por séculos de apagamento, expulsão, racismo e violência, preservar a memória torna-se também uma forma de existir politicamente no presente.

Nos contextos observados, os acervos comunitários atuam como espaços de transmissão de ensinamentos, ancestralidades e modos de vida entre gerações, fortalecendo o pertencimento coletivo e a permanência territorial. Ao mesmo tempo, esses espaços também se consolidam como ferramentas políticas de resistência, capazes de mediar relações com agentes externos, disputar narrativas sobre o território e afirmar a continuidade histórica dessas comunidades.

Esse movimento aponta ainda para possibilidades mais amplas, que ultrapassam os contextos rurais e quilombolas. Em diferentes territórios urbanos marcados por remoções, violências e apagamentos históricos, grupos comunitários também vêm se organizando para construir seus próprios museus, acervos e espaços de memória como forma de registrar suas histórias e reivindicar o direito à cidade. Nesse sentido, a criação de museus comunitários e acervos coletivos tem se consolidado cada vez mais como instrumento de luta política e afirmação da memória de grupos historicamente marginalizados.

 

Referências Bibliográfica

ASSMANN, Aleida. 2021. “Locais”. Espaços da recordação. Formas e transformações da memória cultural. São Paulo: Editora Unicamp. pp. 317-367.

MATTOS, Hebe; ABREU, Martha. “Remanescentes das Comunidades dos Quilombos”: memória do cativeiro, patrimônio cultural e direito à reparação. Revista Habitus – Revista do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia, Goiânia, Brasil, v. 7, n. 1, 2012.

POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos, v.1, n10, 1992.

RIBEIRO, Gustavo Lins. “Quanto maior melhor? Projetos de grande escala: uma forma de produção vinculada à expansão de sistemas econômicos”. In OLIVEIRA, João Pacheco de e COHN, Clarice (org.). Belo Monte e a questão indígena. Brasília, ABA, 2014. pp. 50-70.

 

Aline Sousa é pesquisadora do NESP/UFRJ e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Etnografia e Crítica Cultural (PPGECC/UFRJ). Mestre em Ciências Sociais pelo PPCIS/UERJ e bacharel em Ciências Sociais pela UERJ, com especialização em Política e Planejamento Urbano pelo IPPUR/UFRJ. Consultora em estudos, diagnósticos e planos socioambientais voltados ao licenciamento ambiental brasileiro de grandes projetos de infraestrutura.